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quarta-feira, 4 de maio de 2016

"O joelho da Joana voltou a sair do sítio durante o ensaio. É a terceira vez que acontece e, desta vez, ela até estava com a joelheira protectora. Eu estava atrás dela e a fazer um simples 'échappé', zás...ficou todo ao lado".


Enquanto isso, António Casalinho, vence o Youth Grand Prix, em Nova Iorque, segue para a Royal Ballet School, colhendo frutos de uma das melhores academias de dança do país, instalada na improvável Leiria.

A Annarella, que segue a escola cubana, levou cinco dos dez bailarinos portugueses ao mais importante concurso de dança para jovens, o Espaço Dança (Porto) levou três e o Conservatório Nacional, dois.

Na Covilhã, o bailarino Ricardo Runa, de 23 anos, fundou uma companhia de dança, há dois anos, trocando o contrato de bailarino profissional na Gwinnett Ballet Theatre (Atlanta, EUA) pela loucura do regresso e da invenção do Kayzer Ballet.

No Porto, Matosinhos e Gaia, o DDD (Dias Da Dança) reuniu dezenas de espectáculos de dança contemporânea, workshops e tertúlias, mostrando companhias nacionais e estrangeiras em locais improváveis sempre cheios.

A dança está a descentralizar-se, outras expressões artísticas também, abdicando da asa protectora de uma centralidade exagerada que, oferece segurança, mas sufoca por oferta em excesso.



"As coisas com o Rui [Lopes Graça] estão a correr tão bem que devem haver novas datas!"

Já o escrevi noutras ocasiões: o talento é, provavelmente, aquilo que mais me emociona. Assim, não é descabido perder-me, por vezes, em programas de talentos como o Got Talent onde surgem alguns dignos desse nome.

Sobre a dança nos concursos de talento há uma enorme controvérsia.  A dança, como arte, deverá sujeitar-se a concursos? Deverá envolver-se em competições? Seria relevante um concurso entre Miró e Picasso? Pessoa e Ruy Belo? A minha opinião está formada mas encontra excepções...

A custo da interioridade, aliada à falta de apetência do público para a dança, tornou a criação da Kayzer Ballet, não só uma aventura como uma luta onde vencerá o mais teimoso, o Ricardo Runa ou o falhanço. A jovem companhia não é brilhante mas é criativo, regular e, acima de tudo, corajosa e humilde. Essa mesma admirável humildade e luta contra o insucesso levou-a até, precisamente, ao Got Talent Portugal. Divulgar, encontrar novos teatros que queiram ter a companhia em apresentações, etc, foram os motivos e eles são nobres, tão nobres quando a humildade com que a Kayzer Ballet encara a sua arte, mantendo os pés no chão e recusando o estatuto de primas-donnas.


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Festival DDD - Dias da Dança

SEX 29 ABR / DIA MUNDIAL DA DANÇA

Os finalistas da escola artística Balleteatro, apresentam o espetáculo "Dança #3" na sexta, dia 29, às 21h, no Mosteiro São Bento da Vitória — Teatro Nacional São João.
 

Com a intenção de explorar as potencialidades dos Claustros do Mosteiro, a peça coreográfica nasce da ideia que existe um antes, uma história que a antecede - ela é já um terceiro momento de algo que aconteceu.
 

Entrada é gratuita


SEX 29 ABR / DIA MUNDIAL DA DANÇA

© Joana Cardoso Reis

Nas comemorações do ‪Dia Mundial da Dança‬, Dinis Machado apresenta, no Cine-Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, a sua mais recente criação, PARADIGMA — "uma dança de um exotismos de lado nenhum".
 

O espetáculo é apresentado sexta, 29, às 18h30, e sábado, 30 de abril, às 15h00.

Bilhetes 5,00 Eur


quarta-feira, 20 de abril de 2016

A merda dos graus



Desta vez era Rui Lopes Graça o coreógrafo convidado.
O frisson instalou-se.
Perdera o Benvindo da Fonseca e agora o Lopes Graça.
Havia outros que se habituara a admirar e trabalhar com eles seria quase tudo, mas a merda da idade não deixava, a merda dos graus ainda não permitia.Fato após fato,com o rosa num passado que lhe parecia longínquo, sapatilha após sapatilha, pontas após pontas, suor após suor, lesão após lesão, os exames iam avançando com sucesso mas nunca o suficiente para, uma vez mais, estar no ano certo para absorver o Lopes Graça.
Restava-lhe esperar, restava-lhe ensaiar e um port-de-bras inesquecível. Talvez para o ano haja Paulo Ribeiro ou mesmo o Rui Horta. Afinal, dizem que o tempo passa a correr; serão só mais uns calos, mais uma dúzia de collants, mais um par de joelhos.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A clássica rigidez

Nos ensaios para um novo espectáculo, habituada à rigidez feita leveza, pedida pela dança clássica reforçada pelo ênfase na linha do corpo obrigada por Enrico Cacchetti, defensor da repetição até à exaustão, a bailarina confronta-se com os desafios impostos pela adaptação aos furiosos anos 20/30, reinado do charleston, do swing e da proposta Gershwin a levar à Casa da Música.
"São os movimentos, as flexões do corpo, dos ombros...", constata enquanto revê mentalmente a coreografia que confunde as contagens com ups 'n downs. A cedência do corpo aos movimentos de um estilo que não pede o stiff clássico mas impede o lazy contemporâneo é trabalho de meses. "Espectacular mas complicado", reconhece.


"It's always possible to create something original"
- George Gershwin


"Terpsícore é uma deusa ciumenta"
-Enrico Cacchetti

terça-feira, 8 de março de 2016

INTRODUÇÃO AO MACHO DANCING

Workshop [Foco VOYEUR?] • Qua 9 Mar / das 19h00 às 21h00


Este workshop introduz as técnicas básicas usadas no "macho dancing", uma popular forma de entretenimento noturno nas Filipinas. Aborda técnicas como postura, ondulação, andar, movimentos giratórios ou pose, utilizadas neste tipo de dança, assim como os seus princípios físicos: a criação de ilusão do peso e do volume.
O workshop, no Rivoli (Porto), será orientado pela coreógrafa e bailarina filipina Eisa Jocson e é destinado a adultos, profissionais ou estudantes das artes performativas.
 


*Gratuito mediante apresentação de bilhete para o espetáculo "Macho Dancer".

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016


“No Escuro do Cinema Descalço os Sapatos”
de Cláudia Varejão


Bouchra Ouizguen, coreógrafa marroquina é grande. Nunca calçou pontas, nunca seguiu para Oeste, ou para Leste. Em Marraquexe, aprendeu, sentiu e não esperou, começou furiosamente a criar com base no horizonte que alcançava. De forma insuspeita, inocente até, nem sequer se apercebeu que o Mundo estava atento e lá, do horizonte que não alcançava, a fúria de Bouchra atacou como um sereno tornado.
O horizonte que incorporou não ía, não precisava, de ir além das pequenas aldeias marroquinas que, de passagem, de curiosidade, marcava com movimentos, sinceros, crus, genuinos e, por isso, belos. "Madame Plaza", reconstituição viral das tradições Aítas, valeram-lhe o primeiro prémio. O Mundo, para além do horizonte que alcançava estava atento. Bouchra compreendeu o silêncio, a luz, a morte e o corpo, e foi com o corpo que deu corpo ao Mundo que, desesperadamente queria alcançar, sem ruído, sem alvoroço.


Em 2012 procurou mais horizonte, procurou-o por perto, pelas montanhas, bares e escolas marroquinas de onde apontou no pequeno Moleskine, os sons e os movimentos que importam; apontou mais que isso, escreveu "alegria", no adjectivo fundamental do horizonte que alcançava, agora maior, igualmente pequeno, tradicionalmente marroquino. Mas Bouchra é mais do que Marrocos, Bouchra é Mundo, o Mundo que está atento a Bouchra. Bouchra é, agora, pedaço de Djalál ad Dîn Rûmî, poeta persa, poeta místico sufi, e peça que faltava para colocar em palco "Ha!". "Há!" é tudo isso, tudo isso que Bouchra é, tudo o que quer para nós e nós, pelo corpo, pelo som, suspiramos o inevitável: Bouchar Ouizguen é grande.


A dança de Bouchra já sai de Marrocos. Já atravessa o Mediterrâneo e já alcança velhos amigos, em Portugal. "Ha!" estará amanhã no Rivoli do Porto que, educado como é próprio de um velhinho de 86 anos, recebe a coreógrafa, em festa, festa portuense para Bouchra que retribuiu com a alegria que apontou no pequeno Moleskine. Já pronta para nos mostrar o que é isso de ser marroquino, que alegria é essa que nos soa a vento quente do sul, Bouchra é grande e as grandes são gererosas. Sem se esquecer que um dia alcançou os pequenos horizontes, Bouchra foi alargar os horizontes de quem os viu, repentinamente encurtados pela sombra de uma cela.


Fazia frio e chovia, coisas que Bouchra pouco conhece. Mas conhece os pequenos horizontes e foi por eles que, na prisão de Santa Cruz do Bispo, deu um workshop. Generosa, ofereceu o vento quente do sul e a luz intensa marroquina a quem busca novos horizontes e permanece sedenta por alegria, a alegria de "Ha!" que terá sido bem mais sentida ali do que quando, amanhã, o velhinho Rivoli, ainda preso pela etiqueta e solenidade de tão provecto aniversário, conseguirá absorver. Mas Bouchra sabe-o, tal como sabe que os horizontes marroquinos nunca serão os horizontes europeus, largos mas espartilhados, bem diferentes da poesia de Djalál ad Dîn Rûmî, ou dos odores recolhidos nos bares de Marraquexe. No entanto, desistir não é opção e o Mundo, atento, gosta da persistência de Bouchra. Eu também...

Toda forma que vês
tem seu arquétipo no mundo sem-lugar.
Se a forma esvanece, não importa,
permanece o original...

As belas figuras que viste,
as sábias palavras que escutaste,
não te entristeças se pereceram...

Abandona este filho que chamas corpo
e diz sempre Um; com toda a alma.
Se teu corpo envelhece, que importa?
Ainda é fresca tua alma.

Djalál ad Dîn Rûmî