A cantora não regressou de um passeio de bicicleta
A polícia está à procura de Sinead O'Connor que foi dada como desaparecida na zona de Chicago, segundo estão a noticiar vários media norte-americanos.
A polícia de Wilmette, Illinois, já libertou um comunicado sobre o caso: "A polícia de Wilmette está a tentar confirmar o bem-estar de Sinead O'Connor. O'Connor foi vista fora da área de Wilmette, num passeio de bicicleta, perto das seis da manhã e não regressou. Um telefonema deu conta da preocupação com o seu bem estar e, por agora, não há mais informações". De acordo com o TMZ, o alerta da polícia inclui a caracterização de Sinead O'Connor como sendo uma "missing-suicidal", e adianta ainda que a cantora foi vista numa bicicleta motirizada Raleigh com um cesto cor-de-rosa, vestindo "uma parka preta, calças de pele pretas e uma sweat-shirt onde se lia, nas costas, 'Ireland on the back'".
No passado mês de novembro, um porta-voz de Sinead O'Connor reconheceu que a cantora não andava bem e recebia tratamento,, isto depois de surgirem rumores nas redes sociais que davamconta que a cantora poderia tentar o suicídio novamente.
Os Stone Roses lançam hoje um novo tema, o primeiro desde os anos 90. O novo tema é lançado às oito da noite.
Os rumores começaram a espalhar-se após alguns pósteres com o icónico limão-logo ter sido colocado em revistas e montras de lojas de discos em Manchester, de onde são naturais. Apenas hoje os rumores confirmaram-se com um tweet da banda revelando: "THE STONE ROSES WILL RELEASE A NEW SINGLE TONIGHT AT 8PM".Não foi dada mais informação. Apesar da banda ter-se reformulado ligeiramente para realizar alguns concertos, em 2012, passaram mais de 20 anos sobre o último álbum, "Second Coming", lançado em 1994.
O cenário musical português raramente muda muito. Fases de maior e melhor produção sucedem-se a outras inversas, no entanto, as revoluções nunca são profundas e longe vão os tempos em que um Chico Fininho provocava um vendaval imenso nas sonoridades que irrompiam pelos anos 80 do século passado.
Hoje não há bandas a sério ha, dizem eles, projectos, porque o voracidade dos tempos impede que existam bandas que lutam por um lugar ao sol e insistem no que acham estar certo; agora se não cola passa-se ao projecto seguinte.
Ainda assim, é bom reconhecer alguns nomes contemporâneos na música nacional em quem vale a pena apostar muitas ficas; não todas porque o risco é tão grande como aquele que corri quando garanti a pés juntos que Norah Jones e Joss Stones eram ganhos garantidos. Não foram, o talento está lá os percursos perderam-se. Por outro lado, já me arrependi em ter apenas sussurrado futuros sem ter empurrado as fichas para a mesa. Clã ou Amy Winehouse foram sussurradas mas o pé manteve-se atrás.
Actualmente há dois projectos nacionais que acompanho religiosamente e em que coloquei um balde cheio de fichas: Mirror People e Marta Ren & The Groovelvets. Antes de tudo por duas vozes femininas que considero serem as melhores e mais surpreendentes do momento; Marta Ren e, no caso dos Mirror People & The Voyager Band, de Maria do Rosário. E ambas vão além das vozes, mergulham na postura e presença quase perfeitas para encabeçarem estes... projectos.
Se Marta Ren já tem muito caminho para trás, desde os Sloppy Joe, mantendo-se quase sempre fiel a um soul-funk continuamente melhor tema após tema, já Maria do Rosário abraçou os Mirror People quase por acaso e pelo ouvido clínico de Rui Maia (X-Wife) o inventor de um projecto que, pelo feitio irrequieto de Maia, temo poder não resistir ao tempo. Mas Maria do Rosário resistirá, neste ou noutro modelo, é disso que precisamos.
Marta Ren e Maria do Rosário são, assim, as minhas apostas para um futuro próximo e risonho que nos fará acreditar que nem tudo é marasmo em tempos de projectos tão curtos como arrojados, muitas vezes demasiado curtos e arrojados para que consigam maturar e criar o suficiente calo no nosso ouvido.
Sobre o mais recente trabalho de Marta Ren & The Groovelvets, o "Stop, Look & Listen", o jornal Público dizia, há tempos, em título que "a soul de Marta Ren é suja, grande e gorda". Na verdade o processo criativo que envolveu a procura dessa sujidade, quase vinílica, foi moroso mas valeu a pena e culminou com um disco onde Marta mostrou que só há um caminho: a Daptone Records, ninho único da soul, tal como a BlueNote dá guarida ao jazz e a Deutsche Gramophonne acolhe a clássica - lembram-se das salvações chamadas 4AD, Factory e até Ama Romanta?. O "Stop, Look & Listen" é proposta regular nas rádios internacionais, sobretudo, as de raíz soul-funk, mas falta um raide aos EUA ou um nome-chave que a "adopte"; Charles Bradley seria o sonho.
Já "Voyager", onde nasce Maria do Rosário, é resultado da constante instabilidade de Rui Maia que, um dia, quis escrever músicas para a pista de dança; já ninguém as faz. Maria do Rosário foi a voz que ele precisava e depois de "Voyager", passou a ser a voz que os Mirror People precisam e nós queremos. Rui Maia não precisa que o adoptem, Maria também não, mas seria bom que, como Josh Stone e Norah Jones, os percursos não se perdessem, os projectos não se sucedessem de forma tão vertiginosa que deixassemos de dar por ela, algo difícil de suceder.
A "London’s Animal Welfare Party" convidou o antigo vocalista dos Smiths para ser o candidato à presidência da Câmara deste movimento.
Morrisey pode baixar as calças à Raínha mas ao Presidente da Câmara talvez não. De acordo com um post recente do "True to You" (um site de fans várias vezes utilizado como oficial), o antigo vocalista dos Smiths terá sido "convidado para ser o candidato à Câmara de Londres do movimento 'Animal Welfare Party' nas autárquicas deste ano". E se ele conseguir as 330 assinaturas esta é uma oferta que Morrisey está a encarar de forma bastante séria. "Tem de haver uma voz oficial que denuncie uma sociedade infernal, arcaica e injusta como são tratados os animais no Reino Unido, apenas porque não têm voz. Por outro lado, há milhares de cidadãos muito preocupados com o tema mas que não conseguem fazer nada sobre isso", começa por dizer Morrisey numa declaração sobre direitos dos animais, aquecimento global e justiça social. De acordo com uma reportagem do Guardian, vários grupos ambientalistas começaram a fazer pressão aos candidatos autárquicos de Londres para que digam o que farão para tornar a cidade melhor e mais limpa. "A indústria animal não mostra compaixão com o planeta ou com as mudanças climáticas ou saúde pública", continua Morrisey no seu depoimento, e acrescenta : "É um tema que continua abafado e afastado do debate político o que demonstra bem a importância que lhe é dada". Após ter-se tornado vegetariano, aos 11 anos, Morrissey sempre defendeu os direitos dos animais ("Meat is Murder", foi número 1 em Inglaterra, em 1985). Recentemente, tornou-se ainda mais entusiasta desta causa que o levou ao lançamento do seu décimo álbum intitulado "World Peace Is None of Your Business", e aproveitou para incluir um vídeo ao lado da igualmente defensora dos animais, Pamela Anderson. No mês passado, foi o porta-voz contra a famosa marca "Supreme" porque esta era patrocinada por uma conhecida marca de hambúrgers conhecida por "White Castle". Depois de ter sido fotografado para uma campanha da "Supreme" por Terry Richardson, Morrissey tentou impedir o lançamento das fotos dizendo que "a Supreme foi patrocinada pelos hambúrgers White Castle".
Apesar das tendências de loveably excêntrico ou de lirismo melancólico, Morrissey é, há muito, identificado entre as gerações que já se sentiram marginalizadas por regimes políticos capitalistas e os seus efeitos sobre a estrutura social. Ter este iconoclasta a resistir em lutas políticas pelos direitos dos animais e protecção do clima poderá realmente estimular algumas mudanças reais. "If you think peace is a common goal", cantou em 1987, "that goes to show how little you know."
No seu vídeo de estreia, a jovem talento questiona o peso na consciência dos jovens negros de hoje em dia numa sociedade imperfeita que os conduz a um problema ainda maior. Uma temática poderosa. Com 18 anos, Jorja Smith nasceu e cresceu em Walsall antes de se mudar para Londres no final do ano passado. Antes de deixar a cidade natal, lembra diversas vezes estar sentada no autocarro número 4, entre casa e a escola, e observar as pessoas e adivinhar as suas histórias. Foi esta, juntamente com um projeto de escola que envolveu a análise de vídeo das sirenes de Dizzee, que levaram ao nascimento de seu primeiro single - um que iria acumular quase meio milhão de peças em Soundcloud juntamente com o apoio dos "likes" dos "Stormzy and Skrillex". "Blue Lights é uma canção que escrevi à cerca de um ano. Questiona porque é que existe uma consciência culpada sem termos feito nada de errado", explica Jorja. "O vídeo é sobre um homem negro que retrata três caminhos diferentes que poderia ter seguido durante a vida: pugilista, polícia ou criminoso. Este homem está lutando consigo mesmo e com a percepção que a sociedade e a autoridade tem dele. Como pode um jovem negro fugir do estigma estereotipado e o ódio contra a polícia se isso está presente em cada livro ou filme que vê? O pugilista está literalmente a ser espancado por percepções da sociedade. A narrativa do vídeo é apenas um exemplo dos estereótipos negativos que muitas pessoas sofrem todos os dias", conta a jovem... promessa.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
O mundo rapper não é dos meus preferidos. Preconceituoso, ainda mantenho que a criatividade musical deste estilo é demasiado limitada, preguiçosa até; mesmo que na composição de letras, o rap, ou hip-hop, tenha sido responsável por algumas das mais importantes alterações na música contemporânea. Existem minúsculas excepções, como 50 Cent., Snoop Dogg ou Jay-Z, que escapam à razoabilidade e mediania que leva ao esquecimento do eventual virtuosismo do rap. E depois há Kanye West. Alguém que passou para além do rap e é, exactamente tudo aquilo que ele próprio diz de si, ou seja, não há melhor, nem mais perfeito. West pensa grande, muito grande, e tem motivos para isso. Ainda ontem, no Madison Square Garden, naquilo que seria um dia para a Adidas brilhar, com a apresentação da "Yeezy Season 3", onde marcaram presença os mais mediáticos nomes de Nova Iorque e tudo à volta, o rapper, usou o seu computador e apresentou no novo disco: "The Life Of Pablo". Fuck Adidas, Kanye West in tha house... Antes, atirou marketing para a cara do mundo, e o mundo agradeceu e venerou, mas o marketing, ao contrário de Beyoncé e associadas, não resulta no vazio posterior e West entrega o que promete, sempre o fez, em grande. Entregou-o de imediato e sem rodeios, fustigando Taylor Swift, com "Famous", onde garante: "I made that bicth". E se Wes o diz o mundo acredita, mesmo que Swift apele para a incontrolável misogenia do rapper norte-americado. E o marketing continua, enquanto Kanye levita acima disto tudo.
"I just told Anna [Wintour] this backstage: to be the creative director of Hermès would
be a dream of mine,", disse Kanye West no Garden. Podia sê-lo, porque ele pode ser o que bem quiser, até marido de Kardashian, e, ainda assim, ser aquele de quem se fala, o que se admira até à eternidade. Porque ele cumpre e entrega delírios palpáveis, mostra o jogo e não guarda cartas na manga.
Aliás, entre os contemporâneos, que deixaram para trás o século passado, Kanye West será dos poucos que consegue incorporar em si e na sua música, o gene do ícone, da lenda, da personagem rockstar pura e dura, adaptando, no entanto, para si uma nova estética assente no Séc. XXI.
"The Life Of Pablo" é para West um álgum de gospel, ainda assim, um gospel que não se ouve na igreja. Entende-se, West é, para si, Deus de si próprio, inspiração para o Universo, aliás, "I am God" é faixa presente. Uma vez mais, West idolatra-se tanto como nós o idolatramos, é justo. E as enigmáticas "TLOP", que surgiram por antecipação no Twitter do rapper, fazem agora sentido, tanto como "The Life Of Pablo" faz, para West e para nós convertidos à música perfeita de quem é maior do que o próprio rap.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Quando, no arranque do Séc. XXI, os islandeses Sigur Rós, foram entrando nos nossos sonhos, em Portugal, havia uma espécie de seita secreta que os escutava com devoção religiosa e secreta como quem procura guardar para si o tesouro mais precioso da humanidade. Como guardiões que os protegiam das massas, glorificando a pureza árida daquele som, foram-se multiplicando, incapazes de esconder "Agaetis Byrjun" da superfície do nosso território. Para trás já havia "Von" e "Von Brigôi" que apenas chegariam até nós mais tarde. Nós os profanos.
Isaiah Berlin disse uma vez: "Quando os anjos tocam para Deus, eles
tocam Bach; entre si, tocam Mozart". Isaiah não conheceu os Sigur Rós, caso contrário, provavelmente concordaria que em matéria celestial, eles constariam na playlist angelical com a mesma carga demoníaca com que Mozart cativava as pequenas criaturas. Isaiah talvez concordasse que os Sigur Rós são a banda mais importante do Séc. XXI, até ao momento, pelo menos.
Em 2001, Jónsi e os seus anjos aterraram num CCB quase esgotado para ouvir algo que era quase incompreensível. Os próprios inventores do hopelandish não eram capazes de explicar ao comum mortal de onde surgiam os sons que fabricavam. A sala transbordava de expectativa e de uma estranha reverência a uns músicos alienígenas que, julgo, ainda existiam apenas na cabeça de uns quantos. Seriam palpáveis?
Na altura, Jónsi era um miúdo assustado por ter sido o escolhido para trazer a mensagem divina. Não enfrentou o público com o olhar, sempre que pôde voltou-lhe as costas, e foi soltando notas atrás de notas, sons atrás de sons, fazendo o público ficar à beira de uma explosão emotiva incontrolável. A música era quase inatingível, invadia a alma, a mente, levava ao choro, à vertigem, à miragem e a um sonho profundo de onde ninguém queria acordar.
Foram duas horas de culto, onde nem os sacerdotes pareciam escapar ao transe. Os sigur Rós não acreditaram no que tinham acabado de fazer, nem o público conseguia verbalizar a ideia de que eles existiam para além do som, para além de uma figura divina que existe mas não se vê; como Deus, ou os anjos. Silêncio, completo silêncio na sala. O concerto acabou e durante dois, três minutos, o público não conseguiu recuperar, voltar a pisar terra firme e o silêncio manteve-se - provavelmente Jónsi terá pensado, por uns segundos, que a sua música havia falhado rotundamente. Em décadas de concertos, não me lembro de alguma vez ter acontecido semelhante, tal como não me lembro de ter visto algo melhor. Terá sido o concerto da minha vida e da vida de muita gente.
Desde 2001, a capacidade criativa dos Sigur Rós manteve-se, proliferou para artes que estravasam a música, aquela música que, se quisermos simplificar, não é mais do que traduzir em pauta o divino e o terreno, explicar o que é ser islandês, de uma forma que nem Bjork conseguiu. Depois de Sigur Rós eu sei o que é ser islandês, eu sou islandês porque o sinto. Mas Jónsi cresceu, habituou-se à fama da sua música e da sua figura, lidou com a indústria e a história alterou-se um pouco. Há um depois de "Takk" (2005) e um antes de "Takk". Os Sigur Rós perderam inocência, tocaram a terra com os pés e, pior que isso, o Mundo descobriu-os e quase os devorou. São divinos mas já incorporam pecados. Ainda assim...
Os Sigur Rós foram confirmados no "Primavera Sounds", o único festival que, em Portugal, verdadeiramente, continua a faler a pena (e disto falarei outro dia). Será, muito provavelmente, um fiasco. Eles são uma banda indoor, demasiado intimista, para convencer um público de massas, sedento de muito em pouco tempo, de cerveja, de selfies e euforias laterais. Nunca serão os Sigur Rós capazes de silenciar, de explodir almas como quem sopra um dente de leão. Será um fiasco, como foi Anthony & The Jonhssons na edição passada. A figura delicada de Anthony foi lançada na arena e devorada por uma multidão sem tempo para ouvir o sangue a correr nas veias, o choro de um coração sofrido ou a desilusão de um Mundo negro. Anthony e Jónsi são feitos da mesma matéria e o público, aquele público enfurecido e sequioso não lhes perdoa a audácia de levarem para palco aquele belo que não é o belo que quem chega cedo para ouvir PJ Harvey ou The Nationals costuma procurar.
Leio que John Cale está de volta com uma reedição do proscrito "Music for a New Society", editado em 1982, dando continuidade à tentativa, quase sempre falhada, de se afastar da estética Velvet Underground onde, na sombra de Lou Reed, foi sendo o guardião não-genial, da linhagem principesca dos "Factory Protected".
Em 1988, ainda em plena luta interior, John Cale vai ao Porto, ao Rivoli, mostrar aquilo que julga ser um falhanço mas, sabíamos nós na altura, continuamos a sabê-lo agora, roçava a genialidade que sempre lhe fora negada pelos holototes de Reed e pela rigidez criativa dos Velvet. O concerto era obrigatório, como quase todos numa altura em que Portugal não tinha arregaçado as mangas e conseguido o spot nas agendas dos que valem a pena.
Chega a ordem do chefe: "Vai falar com o gajo antes do sound-check".
Falar com Cale vinha com a promessa da presença no concerto e com a obrigação de mergulhar o mais possível nas entranhas obscuras de alguém que havia estado onde sempre quis estar e feito o que sempre quis ouvir mas nunca verdadeiramente conseguira fazê-lo. Sim, já tinha devorado "Fear", "Paris", "Artifitial Intelligence" ou "Even Cowgirls Get the Blues", mas devorado é uma coisa, ouvido é outra e nos 80 o tempo era escasso e o corpo impedia mais absorção.
Final da tarde. Antes do sound-check, lá estava o puto à espera do Cale. Gravador na mão, em cima do palco, onde só estava o piano. A espera não era difícil porque, nos 80, havia formas de nos mantermos cool, ou melhor, ainda há mas desabituei-me delas. Enquanto isso, acendo um cigarro - sim, nos 80 fumava-se onde nos apetecesse - espero e o tipo entra-me no palco. Ainda sem hipótese de lhe dizer quem era, Cale desata a olhar para o piano de todos os ângulos possíveis e imaginários. Não está de boa cara, a ressaca parece-lhe cool e evidente. Segue-se uma discussão bizarra entre Cale e um qualquer roadie de ar mais gasto do que Cale e a razão estava explicada: o piano estava deslocado do local previsto uns 5 centímetros.
A coisa está quase a acalmar e John Cale finalmente repara em mim. E foda-se, a primeira coisa que me diz é algo do género: "And you, who are smoking in my stage, are...?". Nesse momento não engoli o cigarro porque isso não era cool, mas recordo-me que o inglês que saiu da minha boca, para me apresentar, foi trémulo, ainda que com a pronúncia correcta. "Let's go then, 20 minutes", diz Cale já acompanhado pela RP que lhe volta a explicar quem era o asshole que estava ali a fumar - "Yeahh, i know, i know...".
O tipo senta-se no banco do piano, eu ligo o gravador, pouso-o no piano, sento-me numa cadeira meio na diagonal e antes mesmo de lhe fazer a primeira pergunta, enquanto confirmo os níveis da gravação, John Cale, acende um cigarro e olha em volta à procura de um cinzeiro.
Aos 73 anos, Jonh Cale está liberto de toda a bullshit que os 80 ofereceram, no caso deste ex-Velvet Underground, uma continuação dos 70. A reedição do "Music for a New Society" e a junção a um "M:Fans" com novas propostas para os velhos temas geram curiosidade em mim e o puto cool, agora nada cool, dá por si a pensar que, se a entrevista com o John Cale fosse hoje, continuaria a ser banal mas já não haveria cigarros no palco, nem mesmo um Cale colérico por um erro de cinco centímetros. Haveria, isso sim, o mesmo entusiasmo, agora adoçado, eventualmente, com troca de memórias, com Cale, uma vez mais, a ganhar.