segunda-feira, 11 de abril de 2016

A clássica rigidez

Nos ensaios para um novo espectáculo, habituada à rigidez feita leveza, pedida pela dança clássica reforçada pelo ênfase na linha do corpo obrigada por Enrico Cacchetti, defensor da repetição até à exaustão, a bailarina confronta-se com os desafios impostos pela adaptação aos furiosos anos 20/30, reinado do charleston, do swing e da proposta Gershwin a levar à Casa da Música.
"São os movimentos, as flexões do corpo, dos ombros...", constata enquanto revê mentalmente a coreografia que confunde as contagens com ups 'n downs. A cedência do corpo aos movimentos de um estilo que não pede o stiff clássico mas impede o lazy contemporâneo é trabalho de meses. "Espectacular mas complicado", reconhece.


"It's always possible to create something original"
- George Gershwin


"Terpsícore é uma deusa ciumenta"
-Enrico Cacchetti

domingo, 3 de abril de 2016

Fichas na mesa

 A sujidade de Marta e o precipício de Maria



O cenário musical português raramente muda muito. Fases de maior e melhor produção sucedem-se a outras inversas, no entanto, as revoluções nunca são profundas e longe vão os tempos em que um Chico Fininho provocava um vendaval imenso nas sonoridades que irrompiam pelos anos 80 do século passado.

Hoje não há bandas a sério ha, dizem eles, projectos, porque o voracidade dos tempos impede que existam bandas que lutam por um lugar ao sol e insistem no que acham estar certo; agora se não cola passa-se ao projecto seguinte.


Ainda assim, é bom reconhecer alguns nomes contemporâneos na música nacional em quem vale a pena apostar muitas ficas; não todas porque o risco é tão grande como aquele que corri quando garanti a pés juntos que  Norah Jones e Joss Stones eram ganhos garantidos. Não foram, o talento está lá os percursos perderam-se. Por outro lado, já me arrependi em ter apenas sussurrado futuros sem ter empurrado as fichas para a mesa. Clã ou Amy Winehouse foram sussurradas mas o pé manteve-se atrás.

Actualmente há dois projectos nacionais que acompanho religiosamente e em que coloquei um balde cheio de fichas: Mirror People e Marta Ren & The Groovelvets. Antes de tudo por duas vozes femininas que considero serem as melhores e mais surpreendentes do momento; Marta Ren e, no caso dos Mirror People & The Voyager Band, de Maria do Rosário. E ambas vão além das vozes, mergulham na postura e presença quase perfeitas para encabeçarem estes... projectos.



Se Marta Ren já tem muito caminho para trás, desde os Sloppy Joe, mantendo-se quase sempre fiel a um soul-funk continuamente melhor tema após tema, já Maria do Rosário abraçou os Mirror People quase por acaso e pelo ouvido clínico de Rui Maia (X-Wife) o inventor de um projecto que, pelo feitio irrequieto de Maia, temo poder não resistir ao tempo. Mas Maria do Rosário resistirá, neste ou noutro modelo, é disso que precisamos.

Marta Ren e Maria do Rosário são, assim, as minhas apostas para um futuro próximo e risonho que nos fará acreditar que nem tudo é marasmo em tempos de projectos tão curtos como arrojados, muitas vezes demasiado curtos e arrojados para que consigam maturar e criar o suficiente calo no nosso ouvido.



Sobre o mais recente trabalho de Marta Ren & The Groovelvets, o "Stop, Look & Listen", o jornal Público dizia, há tempos, em título que "a soul de Marta Ren é suja, grande e gorda". Na verdade o processo criativo que envolveu a procura dessa sujidade, quase vinílica, foi moroso mas valeu a pena e culminou com um disco onde Marta mostrou que só há um caminho: a Daptone Records, ninho único da soul, tal como a BlueNote dá guarida ao jazz e a Deutsche Gramophonne acolhe a clássica - lembram-se das salvações chamadas 4AD, Factory e até Ama Romanta?. O "Stop, Look & Listen" é proposta regular nas rádios internacionais, sobretudo, as de raíz soul-funk, mas falta um raide aos EUA ou um nome-chave que a "adopte"; Charles Bradley seria o sonho.

Já "Voyager", onde nasce Maria do Rosário, é resultado da constante instabilidade de Rui Maia que, um dia, quis escrever músicas para a pista de dança; já ninguém as faz. Maria do Rosário foi a voz que ele precisava e depois de "Voyager", passou a ser a voz que os Mirror People precisam e nós queremos. Rui Maia não precisa que o adoptem, Maria também não, mas seria bom que, como Josh Stone e Norah Jones, os percursos não se perdessem, os projectos não se sucedessem de forma tão vertiginosa que deixassemos de dar por ela, algo difícil de suceder.

 

terça-feira, 29 de março de 2016

Iggy a atirar-se ao mundo uma última vez*

Sim, já fui cuspido por Iggy Pop. Em 1991, no Coliseu do Porto.
Infelizmente, o virus não me contaminou o suficiente para fazer de mim um tipo-vicious. Provavelmente, se tivesse sido cuspido dez anos antes, no Infante Sagres, a força de Iggy conseguisse penetrar-me as entranhas e me levasse mais longe.
Ainda assim, o cuspo foi o suficiente para lhe reconhecer o estatuto de lenda viva, um dos últimos moicanos capazes de nos fazer fervilhar o sangue à mesma medida que uma dose borbulha na colher antes de ser cortada com limão.
O rock visceral, puro, sem pretensões estéticas mas ilusões sonoras, afastou-se das multidões eléctricas, por isso, Iggy fez a travessia no longo deserto mas, como os Stones e Bowie, fê-lo de bom grado e com maior pureza. Fê-lo sem rede, sem roupa, sem nada, terá mesmo sido o único sem recaídas, algo que não surpreende pois, para Iggy, rock é rock (rocha), pouco dado à flexibilidade de Jagger ou ao camaleonismo de Bowie.

Mas diz-se que será a última de Iggy, mas não acredito, não será, porque ao contrário de Bowie, Iggy Pop não morrerá, ele é incapaz, nem sabe como. Ou por outra, ele já morreu, demasiadas vezes para agora...morrer. Pop é um duro, o último dos duros num rock que já não serve mas é demasiado teimoso para ceder, para mudar.
Sim, fui cuspido por Iggy Pop, right in the face,  não me fez ver a luz, mas certamente entrou mais claridade em mim.



Envelhecido e esclerosado, mas longe de derrotado,
a atirar-se ao mundo uma última vez.
 
  
É uma despedida. Di-lo o próprio autor, ainda que sem certezas, porque sabe-se lá onde estará e o que quererá fazer Iggy Pop daqui a cinco anos, que foram os mesmos que demoraram os LCD Soundsystem entre o concerto de adeus e o olá recente. Certo é que foi pensado e gravado como despedida. Um derradeiro gesto depois dos álbuns com os Stooges em que, confessava à Mojo este mês, fizera o que Ron Asheton e James Williamson lhe pediram que fizesse, e depois dos álbuns a solo enquanto crooner com predilecção pelo universo da canção francesa. Esse peso sente-se em Post Pop Depression e iríamos senti-lo mesmo sem essa nota de contexto.

Gravado com Josh Homme, vocalista e guitarrista dos Queens Of The Stone Age em quem Iggy viu alguém capaz de compreender o seu legado sem cair na reverência, e contando com a ajuda de Dean Fertita (Queens Of The Stone Age, The Dead Weather) e de Matt Helders, baterista dos Arctic Monkeys, é um álbum que mergulha em fantasmas do passado para aí encontrar uma vitalidade redescoberta. Não encontramos aqui o Iggy Pop incendiário e excessivo, qual bomba detonada sobre o rock’n’roll adormecido e a burguesiazinha que se compraz em confronto. É crooner de voz cava e ameaçadora – “I’m gonna break into your heart / I’m gonna crawl under your skin” – mas essa ameaça é, basicamente, o resumo do que Iggy Stooge fez connosco desde que No fun e I wanna be your dog dinamitaram em 1969 o mundo do rock tal como o conhecíamos. É essa voz profunda que nos conduz, canção a canção das nove que compõem Post Pop Depression. Essa voz é o álbum e esse acaba por ser o maior elogio que podemos fazer ao trabalho de Josh Homme – o de ter criado os cenários perfeitos para que Iggy hoje, o Iggy que se despede, pudesse revelar-se.




Em Post Pop Depression ouvem-se várias camadas sobrepostas: Gardenia é portal ligando-nos ao trabalho com David Bowie no final da década de 1970, de que resultaram os imprescindíveis The Idiot e Lust for life, mas é baptizado com nome de uma stripper que, certa noite há muitas décadas, Iggy e Allen Ginsberg tentaram seduzir – e é conto sobre o que se esconde atrás do glamour tão cintilante: “American’s greatest poet / was ogling you all night / You should be wearing the finest gown / But here you are now / Gas, food, lodging, poverty, misery / and Gardenia”.

Em Post Pop Depression Iggy é o pregador sem púlpito e sem religião que transforma a melodia apontando a oriente de American Valhalla (memória de China girl, a que foi dele e de Bowie?) em conto gótico do rock’n’roll americano, com a mortalidade a mostrar-se sem pudor e Iggy a deixar cair a máscara: “I have nothing but my name”, dirá e repetirá no fim.





Perante o negrume e o coro tétrico de Vulture, perante essa Paraguay que se despede e que faz a despedida do álbum com Iggy confrontante, sozinho contra o mundo como no início de tudo e despejando bílis sobre a inanidade que o rodeia (“There’s nothing awesome here, not a damn thing; there’s nothing new, just a bunch of people scared; everybody’s fucking scared, I’m tired of it”), a tentação será dizer que este é o melhor álbum de Iggy Pop em [inserir um número avulso de décadas]. Post Pop Depression merece mais que isso. É o álbum de Iggy Pop, 68 anos, envelhecido e esclerosado, mas longe de derrotado, a atirar-se ao mundo uma última vez. É uma derrota muito digna. É uma vitória tocante.
  


*Credits do segundo texto:
Público/Mário Lopes

sábado, 26 de março de 2016

sexta-feira, 25 de março de 2016

Voodoo Girl




Her skin is white cloth,
and she's all sewn apart
and she has many colored pins
sticking out of her heart.
She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.
But she knows she has a curse on her,
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,
the pins stick farther in.





Tim Burton