sábado, 5 de março de 2016

A promessa de Henrique


Henrique Raposo, "Alentejo Prometido"

Antes do mais, deixo um alerta: não li o livro. Provavelmente não o leria, uma vez que não seria um tema que, de imediato, me chamaria à atenção ao ponto de o comprar , no entanto, vejo-me "forçado" a lê-lo, numa tentativa de reforçar a ideia pré-concebida que tenho sobre aquele mesmo Alentejo de que fala Henrique Raposo.
Na verdade, foi a polémica de proporções fora do comum neste nosso país que me "obrigou" a debruçar sobre o que estava em causa. Desde logo, perceber que uma terra voltada ao abandono seja, de repente, uma região que todos amam e defendem de forma acérrima, depois porque aquilo que Henrique Raposo descreve, sobre o seu Alentejo, não será mais do que o emergir de uma visão há muito partilhada e comentada entre dentes, entre paredes, provavelmente, menos audível dada a imensidão de um território que se perde a si próprio.
O Alentejo vendido, o Alentejo percepcionado, e até o Alentejo mais doente divulgado nos media, está longe de ser o Alentejo verdadeiro, o tal de que Raposo fala, o tal que é negro, solitário, depressivo, num constante luto que seríamos capazes até de identificar de forma ténue, no cante que agora todos gostam. Há profunda depressão, atrasos civilizacionais resultantes do abandono a que está votado e que geram desigualdades de género graves, há desemprego que desespera, rostos franzidos e desesperança. Henrique Raposo disse-o alto e bom som, O Alentejo, e não só, não gosta que a escuridão se misture com a claridade, mas nem terá sido ele o primeiro a lembrar-se desse mesmo Alentejo; José Luís Peixoto, por exemplo, também o fez, em "Galveias" ou em "Morreste-me", de forma menos crua, menos impiedosa, mas fê-lo.

Folclore à parte, posições exacerbadas de lado, o certo é que quem violentamente e, por vezes, cobardemente o atacou, fê-lo em defesa do Alentejo, em defesa de uma visão menos embaraçante de uma terra que lhes diz algo, ainda que os esqueletos continuem nos armários. Censurável mas também louvável. Ao contrário, será um peso para Henrique Raposo, para mim seria, ver que os que o defendem o fazem, não pela justiça do tema ou pela honestidade intlectual do escritor, mas apenas porque em causa está a liberdade de expressão. Esta liberdade é fundamental mas torna-se oca se a defesa que dela fazemos ignora as causas, os temas, as dores e as origens dos radicalismos. Liberdade por liberdade é um enorme "porque sim", que merece ser defendido mas, por si só, sempre soará a vazio.

1 comentário:

  1. O "Morreste-me é o livro mais triste do mundo, tal como no Alentejo profundo são tristes os velhos.

    O Henrique Raposo descreve muito bem o Alentejo real. Já li.

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